
Convidado a repetir no Curso de Radiologia a aula que apresentou na 39ª Jornada Paulista de Radiologia, o Dr. Manoel de Souza Rocha foi o palestrante da atividade promovida pela SPR [Sociedade Paulista de Radiologia] para residentes e estagiários, edição do dia 24 de junho, no Hotel Paulista Plaza, em São Paulo. Mais reflexivo do que científico, o conteúdo da apresentação, intitulada “A Radiologia que ensinamos nem sempre é a Radiologia necessária”, questionou sobre o papel do radiologista no presente e as preocupações de professores e profissionais com relação ao futuro.
“É bom compartilhar ideias para que todos possam confrontar o que se discute com os próprios conceitos. Daí surge uma visão mais apurada de determinado assunto”, declarou o médico, membro do corpo docente do Departamento de Radiologia da FMUSP. Pelo tom das primeiras palavras do radiologista, graduado em 1981 e doutorado em 1993 em Medicina pela USP, já se podia antever o quanto a aula seria reflexiva e abriria espaço para o amadurecimento de opiniões. Foram abordadas as responsabilidades do radiologista, os perigos do diagnóstico intuitivo e os desafios do ensino e do profissional.
Utilizando quatro casos adultos e um infantil para ilustrar suas afirmações, sempre tendo como foco o abdome, sua especialidade, Dr. Rocha assume: “Nem sempre ensinamos a Radiologia necessária. Na apresentação de casos, em cursos e reuniões, sempre vem a pergunta ‘Qual é o diagnóstico?’ para que um profissional sugira uma resposta. E no fim, todos aplaudem. Essa pergunta , porém, talvez não seja a mais adequada, a mais importante para definir a contribuição da Radiologia na condução do caso clínico. As respostas geralmente são intuitivas, pouco reprodutíveis e inconclusivas para a tomada de conduta clínico-cirúrgica”, polemiza o radiologista. Para ele, o ideal seria diminuir o ímpeto de buscar um diagnóstico histológico, e “localizar a lesão, realizar diagnósticos específicos quando característicos, realizar diagnósticos em grupo de lesões na maioria das vezes, determinar a melhor forma de estabelecer diagnóstico específico preciso,‘molecular’, resolutivo”.
Outros conselhos dados pelo palestrante são pensar um passo antes para avaliar como obter o diagnóstico e em qual momento, e verificar o estadiamento de uma lesão, se é possível ressecá-la ou mesmo se cabe um tratamento radiológico naquele caso. “É imprescindível conhecer a anatomia cirúrgica para que você possa definir se um tumor é ressecável ou não”, exemplifica.
Sempre mostrando os sintomas exibidos em cada caso e as conclusões apresentadas em reuniões e estudos passados, Dr. Rocha ressaltou o perigo de haver um diagnóstico incompleto ou duvidoso: “Eu estou focando na área abdominal, mas eu arriscaria dizer que o mesmo ocorre em outras áreas”.
Didático, explica que é preciso alterar o foco de atenção desde os estudos: “Nos preocupamos com conceitos: estudamos a diferença entre a Síndrome Turcot e a Síndrome Cronkhite Canada, mas nos esquecemos de estudar para onde se faz a drenagem linfática de um colo direito”, exemplifica novamente.
O professor também ressalta que um caso interessante nem sempre é um caso raro, até porque a rotina do radiologista não vai ser feita de aberrações. “A formação do profissional, o aluguel, o carro, a prestação do apartamento não serão conquistados com casos raros, mas com um caso interessante no dia a dia como, por exemplo, um pós-operatório que teve líquido infectado. Você pode avisar o cirurgião e perguntar se deve drenar. Aí você está sendo resolutivo”.
Questões para refletir, segundo o Dr. Manoel de Souza Rocha
• Adquirindo experiência, é possível reconhecer nuances das características das lesões e identificar variantes anatômicas relevantes.
• Deve-se aprender sinais que ajudem a identificar uma lesão como inflamatória, aguda ou crônica, neoplásica etc.
• Em várias condições, várias doenças têm a mesma forma de apresentação radiológica. Não se pode desprezar a doença com chance de 5%, pois os tratamentos são diferentes.
• Antecipe para o cirurgião, já no relatório, o que ele vai encontrar na cirurgia. O diagnóstico já está certo – o que vem depois? É preciso ter um conhecimento amplo de
anatomia, conhecendo as variantes anatômicas para saber a eventual repercussão em uma cirurgia.
• No abdome, a relação da estrutura com os vasos é fundamental, por exemplo. É preciso antecipar a informação, mesmo que seja para afirmar ‘eu não identifico a veia renal direita’. Mas é preciso detalhar.
• Por vezes, o diagnóstico apresentado está certo, mas a discussão cessa ali: Temos um caso de sarcoma de retroperitônio, mas o mais importante não é saber qual o tipo desse sarcoma, e sim se é possível separar o tumor da veia cava inferior.
• Discutir a relação do tumor com o órgão é essencial. Se for biopsial, qual biópsia realizar?
• Mesmo que não conduza determinado exame, é preciso saber o que é possível obter com ele, para indicá-lo ou não.
Fonte: Jornal da Imagem/Julho/2009
Edição: C.P
01.09.2009